O dilema. Ser acadêmico ou empresário, eis o viés de seleção!

A meu ver este é o conflito mais comum do trabalho em empresas de todos os tipos. Objeto de divergências persistentes entre empregadores e empregados, alunos e professores é um grande entrave na execução de tarefas. Nosso duelo começa na universidade… Cláudio Maurício era um estilista talentoso, aluno aplicado e mente brilhante. Eis aí a primeira grande diferença:

1) Mente. Assim como entendiam os faraós sua mente era dividida entre necessidade e razão. Metade empresário, metade acadêmico. Seu lado empresário valorizava as notas, o resultado enquanto o outro se preocupava com o aprendizado, discursos mínimos e máximos em permanente conflito.

Por méritos conseguiu estágio entre figuras internacionais. Discípulo do rei da moda sua fidelidade e respeito pelo chefe era notável! Comportamento cordial e senso crítico aguçado logo recebeu convites para expor sua própria grife, quando veio seu primeiro conflito moral:

2) A ética. Nesse momento falou mais alto seu lado empresário. Para acadêmicos a ética muitas vezes é confundida com fidelidade, submissa a uma hierarquia difícil de romper. A hierarquia do pensamento. Para empresários os conflitos éticos só importam se influem diretamente no resultado, sua natureza é terminal e neste caso a oportunidade parecia promissora.

Montar uma equipe foi seu primeiro grande desafio. Prevalecendo seu lado acadêmico:

3) As variáveis. Trabalhou todas as variáveis possíveis, selecionou a melhor amostra entre costureiras e modelos, a mais homogênea possível, criando uma equipe que mais tarde seria reconhecida como a elite da moda. O melhor método de análise. Foco no caminho.

O estresse era total! Estávamos às vésperas da São Paulo Fashion Week, todos os detalhes já haviam sido pensados. Seu primeiro desfile tinha de ser um sucesso, investiu todos os recursos de sua família neste momento. Era tudo ou nada!

4) O risco. Para acadêmicos não passa de uma medida de associação. Mas para empresários é um lugar onde colocam suas vidas. Sua visão futurista não repousa em probabilidades, mas na intuição.

Mas, sempre mas… Algo o incomodava. Faltavam alfinetes! Seu lado acadêmico o fez tropeçar. Como fariam os acabamentos de último momento?

5) A variável de confusão. A contratação de muitos caciques e nenhum índio. O discurso máximo o fez esquecer do elementar. Um Office boy! Aquelas costureiras de ponta preocupadas com o ponto esquecer-se da agulha. Esta variável é aquela que aliada das costureiras (a agulha) poderiam modificar o resultado do desfile, inviabilizando o reconhecimento e esforço da equipe.

Seu lado empresário teria de salva-lo!

6) A velocidade. A necessidade maior que a razão, urgenciando tudo que encontram pela frente, passo a passo, superou mais essa dando uma gorjeta vultosa para o manobrista comprar as agulhas em seu carro. Acostumados a evoluírem em saltos depois de longos períodos de introspecção, a velocidade de acadêmicos são como o flash de uma máquina com pouca bateria. Intelectuais, sofrem com detalhes do dia a dia. Curiosamente apesar de estilista, para não ter que se preocupar com o que teria de vestir, Clássio, como era conhecido popularmente, tinha em seu guarda roupa vários ternos absolutamente iguais…

Com as meninas prestes a entrar na passarela, de repente um ruído e um grito… Santíssima! Ao ver sua principal modelo resvalar num prego acarretando num pequeno corte no seu vestido, Clássio desencarnou! Suas auxiliares desmaiaram, o pânico foi geral, era gente estirada pelo chão pra todo canto… Ao acordar exclamou: eu te amo, minha Deusa! Ninguém entendeu nada… Aquela gente começou a se levantar como se nada tivesse ocorrido, quando de repente Clássio pegou a top model pelo braço e terminou o estrago que o prego havia começado… Voltaram todos para o chão, enquanto o “louco” continuava a rasgar as roupas das demais. O silêncio era estarrecedor…

7) O viés de seleção. Foi desencarnado que teve um insight: roupas rasgadas eram o detalhe que faltava. O desfile veio a sua cabeça seu lado acadêmico revelou o viés e o empresário o pôs em prática. Afinal o que é a moda se não um viés de seleção: o ilógico, o esquisito, o que espanta, o que foge ao comum é também aquilo incrementa o resultado. E resultado é dinheiro…

O desfile foi um sucesso! Convites para lecionar, palestrar, transmitir sua expertise não faltaram… As encomendas inúmeras, maiores que a capacidade de produção colocavam aquelas costureiras perfeccionistas num cai-cai histérico insuportável. A pressão foi aumentando e Cláudio Maurício teve de decidir: adoecia e vendia ou ensinava e não comia…

8) O sonho. Onipotente, o sonho do acadêmico é ser ele verdade. Perseguem a verdade universal, selecionando o real, o comum em busca do invisível… Para o empresário e não menos onipotente, seu sono é ser o primeiro. O primeiro a colocar seu produto no mercado: Modess, Xerox… Procuram pela verdade focal selecionando o diferente, o surreal em busca do visível… Ambos querem reconhecimento!  Serem amados.

Como que dois perfis tão diferentes podem coexistir numa mesma pessoa? Da mesma forma que a mente coexiste num cérebro. Clássio utilizou-se de um e de outro e talvez esta possa ser a fórmula do seu sucesso. Mas… Há sempre um porém!  A idade avançava, o amor crescia a paixão esmilinguia… Anos mais tarde… Clássio foi encontrado num templo budista… Recitando mantras em busca da iluminação.

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2 Comentários em “O dilema. Ser acadêmico ou empresário, eis o viés de seleção!”


  1. Edgard, parabéns pela colocação (empresário x acadêmico). Acredito que ela suscinta uma real discussão sobre as verdades omitidas no assunto. Tecerei sobre a medicina, em especial. nesta área, dizer-se acadêmico é conceder-se o salvo conduto para a ineficácia na gestão, enquanto falar em empresariado, em gestão, em performance, em metas é cometer crime hediondo e inafiançável. Ora vejamos: pode a atividade empresarial, na área da saúde, ser guiada por uma verdadeira postura acadêmica? A resposta é mais do que clara, sob a minha ótica: o academicismo puro é matriz fundamental para o sucesso empresarial pois ali repousa a mais elevada eficiência, o mais atual modelo terapêutico, logo, alinha-se perfeitamente com a atividade empresarial pois, em essência, foca a atividade. Devemos fazer a distinção entre um P&D regrado de um pseudoacademicismo que abre as comportas do custo ilimitado dentro de um aberrante palco de condutas muitas vezes discordantes do princípio da busca…Dar-te-ei um exemplo: excluindo o péssimo humor e o sarcasmo do Dr House, vc o contrataria para atuar em seu hospital? Peço que analisem os episódios e vejam as formas muitas vezes grotescas, destituídas de uma mínima conexão de lógica em seus diagnósticos…este é um exemplo do acadêmico mal conduzido…

    Publicado por Mery Martins Neto


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